Cadeira vazia





Nós somos acostumados a odiar a rotina. Quem sabe até faça sentido lá no fundo, afinal, qual o sentido de empenhar todos os dias da sua vida em uma interminável e repetitiva atividade?
Desde que você chegou, tornou-se minha rotina. Quase tudo mudou por sua causa: tive que me adaptar, redefinir prioridades, deixar algumas coisas de lado para ganhar muitas outras. Não, nada disso era ruim: na verdade, era excelente. Você se tornou minha maravilhosa rotina, e eu amava ela.
Mas eu havia ignorado o fato de que esta rotina seria quebrada e, diferente das outras rotinas, quebrá-la foi penoso. Eu achava saber o que era dor, mas no momento que você partiu, percebi que eu nunca havia conhecido dor de verdade e, desde que você foi embora, nada mais é como antes, nada volta ao lugar de sempre.
Não tenho mais você me aguardando após a aula com um copo de chocolate quente, um beijo e um sorriso pra nos aquecer e um pão de queijo para que não fôssemos pra casa com fome;
As salas ficam vazias e frias sem você sentada ali na mesa do professor, estudando com suas várias canetinhas coloridas e folhas espalhadas pela mesa. Nesta cena você era meu refúgio nas vezes que eu saia cansado no meio da aula para lhe dar um abraço longo a fim de me recuperar e encarar o resto das aulas. E eu não tenho mais este refúgio;
Não tenho mais com quem compartilhar pessoalmente como foi meu dia em troca de um olhar interessado e apaixonado sendo interrompido por delicados beijos entre frases sucedidos do seu maravilhoso sorriso;
Fiquei sem "meu cantinho" no seu ombro pra descansar e sem aquele abraço deitados na cama que me abrigava quando a vida parecia uma onda tentando me naufragar;
Dirigir pela cidade não me traz mais prazer sem poder repousar minha mão na sua perna e sentir sua mão passeando pela minha nuca ou me fazendo cafuné e me mantendo calmo enquanto dirijo. Desaprendi a dirigir sem teu doce perfume tomando conta do carro;
Semáforos vermelhos se tornaram penosamente longos, um desperdício de tempo sem os beijos que você me dava a cada vez que parávamos em um;
Os parques não mais possuem seu verde tão extasiante nem os pores do Sol aquarelando o céu com tons de rosa e laranja possuem arrebatadora beleza outrora vista. Eles apenas me trazem saudade;
Não tenho mais comigo quem me fez redefinir limites, planos e desejos nem quem dê risada das inúmeras piadas ruins que eu soltava diariamente;
Não tenho mais razão para acordar cedo no domingo e passar por aquelas mesmas ruas com o prazer de antes;
Não tenho mais de quem segurar a mão durante os cultos de domingo nem tenho mais como ouvir aquela doce voz cantando pertinho de mim;
Mas de toda essa quebra de rotina, a parte mais amarga talvez sejam meus almoços de domingo, pois agora, além da saudade, tudo o que resta diante de mim é uma cadeira vazia.


Stephen S. M.

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