Vivi?




(sugestão de trilha sonora: Sabaton - The Hammer has fallen)

É, a gente sabe que isso vai acontecer mas nunca espera.
Eu morri. Já era, acabou. o Chefe bateu o martelo.
Saí do meu corpo e resolvi seguir ele, queria saber como seria o funeral, o que as pessoas diriam.
Fui ver os falsos, os que falavam uns para os outros "ele era meu amigo" mas na verdade queriam apenas se aproveitar, e quando eu precisei, viraram as costas.
O que doeu mesmo foi ver as pessoas que me amavam lá. Nada em toda a minha vida doeu mais do que ver aquelas lágrimas que eu sabia que eram sinceras.
Mas de tudo, o que mais me chamou a atenção foi uma pergunta e sua resposta: Quantos anos ele viveu? - alguém perguntou.
Ah, viveu bem. Viveu 80 anos - respondeu um chegado meu.
Mas de repente me questionei: eu realmente vivi 80 anos?

Que contagem mais sem sentido e vazia esta que fazemos enquanto estamos vivos! Quem disse que eu vivi 80 anos? Minha certidão de nascimento ou de óbito? E o tempo que desperdicei no meu celular, as noites que troquei minha esposa pelo meu trabalho? Aquilo era vida? Que lixo de vida, pois!
Eu vivi mesmo foi nos momentos em que eu me joguei na tirolesa, que tomei banho de cachoeira. Vida mesmo era estar do lado da mulher que eu amava, sentia o cheiro dela e a beijava. Eu fingia estar feliz correndo atrás de tudo e todos pra montar meu pequeno reino, trazer o máximo de conforto e segurança pra minha família, mas estava cego, sem perceber que neste caminho eu estava desperdiçando algo que agora não tenho mais: tempo.
Como dói estar aqui agora, fora do meu corpo, olhando aquele pedaço de carne sem vida no caixão, prestes a ser jogado em um buraco na terra, que eu poderia ter usado para aproveitar melhor o tempo com minha esposa, poderia ter saído mais com ela, viajado mais, passado mais tempo deitado na cama sentindo aquele perfume do frasco lilás. Como pude ser trouxa de não dar os tantos dez minutos a mais que ela me pedia? Eu podia muito bem ter ficado mais um pouco e sentido aquela pele tão lisa e macia por mais vezes, podia ter dado mais daqueles abraços apertados que tiravam o ar dela.
Eu deixei minha vida e o prazer do amor de verdade ir embora como a areia da praia fluía entre meus dedos a troco de coisas que ficaram lá do outro lado.

Quantos anos eu vivi? Difícil dizer. Aqui deste lado, sem chance de mudar o que fiz e deixei de fazer não sei mais o que foi vida ou apenas existência.
Estive vivo por oitenta anos, mas pareço não ter vivido nem a metade disto.

Stephen S. M.

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