Eu prefiro o papel
Já pararam para pensar em quantos hábitos
foram acrescentados ao nosso dia a dia com o advento da pós-modernidade?
Já ouviram falar
em telefone que funciona à base de manivela? Hoje temos telefone sem fio,
extensão, celular, chamadas ao vivo no WhatsApp.
Sim,
antigamente precisávamos ficar girando mil vezes uma manivela para falar com
alguém e hoje podemos até ver o rosto da outra pessoa por uma tela, ainda que
ela esteja em outro país. Isso não é no mínimo incrível?!
E a máquina de escrever que se errasse uma
letrinha já era? Hoje temos até corretor no teclado dos nossos Smartphones...
E tudo parece
andar tão depressa, tudo parece passar muito rápido, o que era há um minuto,
agora pode não ser mais. E precisamos nos adaptar. Ai de quem ficar para trás,
esse será jogado fora assim como todo o passado obsoleto do qual ele ainda é
adepto.
Mas será que
precisamos enterrar tudo aquilo? Tudo mesmo?
Como amante
da leitura e da escrita, lembro-me de como era bom escrever e receber uma
carta. Como era gostoso escrever "com carinho, de sua amiga Brígida",
"aguardo ansiosamente seu retorno", "sinta-se calorosamente
abraçado" e outras milhares de saudações e despedidas que inventávamos na
época.
Para onde foi
todo esse carinho e criatividade?
Hoje posso
receber mais de 100 E-mails por dia, em que 80 são propagandas, 10 são vírus e
os outros 10 são cobranças. E nenhum de um amigo.
Até o pobre do E-mail está ficando ultrapassado. Hoje falamos tudo por WhatsApp, até as clínicas estão fazendo agendamento por ele, professores estão enviando matéria por ele nos mais variados grupos em que estamos inseridos...
Antes o número do celular, que era algo tão particular, apenas para familiares distantes, hoje se tornou algo popular. É capaz de até a tia da padaria da esquina ter o meu número salvo.
Antes o número do celular, que era algo tão particular, apenas para familiares distantes, hoje se tornou algo popular. É capaz de até a tia da padaria da esquina ter o meu número salvo.
Diariamente, não nos damos nem ao
trabalho de digitar "bom dia, tudo bem com você? Espero que seu dia seja
abençoado. Conte comigo!" e apenas copiamos e colamos uma mensagem ou
encaminhamos uma imagem de bom dia que recebemos de outrem.
Estamos tão
próximos das pessoas, porém ao mesmo tempo tão distantes (isso é possível?!).
Parece que o afeto foi embora junto com o passado.
Quando eu
tinha que escrever uma carta que demorava cerca de 20 dias para chegar até a mão
do destinatário, uma carta que eu tinha que colocar selo, enviar, pagar e
aguardar por vezes um mês pelo retorno... Eu me sentia bem mais próxima das
pessoas do que hoje que não demora nem 5 segundos para a mensagem chegar ao
destino.
E algo que afeta diretamente aqueles que amam
livros, é o fato de os livros impressos estarem sumindo. Há quem goste de ler on-line,
em PDF e em vários outros formatos digitais. Mas também existe uma mazela
nostálgica que ama o toque de um livro, que ama o cheirinho de livro novo, que
ama fazer dedicatórias, que ama colocar pétalas de rosas entre as páginas... E
eu faço parte dessa.
Até mesmo nas
igrejas não se usa mais Bíblia impressa, mas em um aplicativo do celular. Os 66
livros da Bíblia dentro de um aplicativo de celular. Eu não sei se o que há de
errado comigo, mas para mim isso é um tanto surreal. Talvez seja um sinal de
que estou ficando tão obsoleta quanto os costumes que estou querendo resgatar.
Há quem prefira passar a tarde em uma
biblioteca do que simplesmente navegando na Wikipédia, por incrível que pareça.
No entanto, a maioria faz parte do grupo defensor de academias cheias e bibliotecas
vazias. Aonde vamos parar?
Ar poluído
com a desculpa de que precisamos evoluir, crescer, produzir. Mas para quê tudo
isso se o próprio homem já descobriu que sua exagerada evolução pode matá-lo?
O homem que
só atravessava a rua, já conquistou a lua.
O homem que
tinha como limite o céu, até um satélite com uma câmera colocou no Espaço para
assistir do conforto da sua casa o que está acontecendo lá na outra dimensão.
O homem que só andava pelas rotas terrestres e
marítimas, já ultrapassou o Espaço e está descobrindo novos planetas e
classificando cada um deles.
Estou
aguardando o tempo em que os bebês nascerão com um Smartphone na mão e
atualizarão o status do Facebook para "sentindo-se nascido" e criarão
o evento "nasci, galera".
Quando ouço “já
inventaram de tudo, eles não têm mais o que inventar”, sempre respondo com
alegria e tristeza simultaneamente: “Eles têm, sim.”
Mas não faço do tempo um réu, em minhas palavras
não carrego sequer uma gota de fel, mas vou lhe dizer: eu, ah... Eu prefiro o
papel!

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